O resultado das eleições presidenciais, com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por uma margem superior a 4 milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro (PL), surpreendeu a maior parte do Centrão. Durante o segundo turno, quase todos os partidos desse grupo apoiaram o senador do PL, mas menos de 24 horas após a abertura das urnas, já recalculam a rota e admitem compor com o governo Lula.
O discurso predominante é o de que será necessário formar um governo de coalizão, incluindo partidos além da esquerda na Esplanada dos Ministérios. Além disso, há um instinto de sobrevivência político, já que esses partidos temem perder espaço no Congresso diante do crescimento da bancada do PL. As lideranças de partidos como Republicanos, MDB e PSD já iniciaram conversas para unificar a atuação do grupo após a eleição.
O deputado Ricardo Barros (PP-PR) afirmou que Lula terá de negociar com esses partidos para garantir sustentabilidade no Congresso.
"Os partidos de centro possuem um 'DNA' da governabilidade", disse Ricardo Barros.
Manifestações após a eleição
Partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro, como União Brasil, Republicanos, MDB e PSD, emitiram notas parabenizando Lula pela vitória.
O MDB publicou nas redes sociais que “é um momento em que a vontade popular se fez soberana” e desejou que Lula tenha “serenidade para governar o País em favor de TODOS sem exceção”. Embora a maioria dos diretórios do MDB tenha apoiado Flávio Bolsonaro, o partido não fechou questão em sua campanha.
Gilberto Kassab, presidente do PSD, afirmou em nota que tem certeza de que “nossos parlamentares e governadores eleitos seguirão defendendo os bons projetos e manterão a relação republicana com o Governo Federal, em defesa do objetivo comum a todos nós, que é o desenvolvimento do Brasil e o bem-estar da nossa população”.
Disposição para negociar
Alguns parlamentares da base de Lula concordam que o governo precisará fazer um mandato menos alinhado exclusivamente ao PT, sinalizando abertura para outros partidos.
Segundo um ex-ministro ouvido, a nova gestão terá de ampliar o diálogo com setores da direita democrática, construir alianças e trabalhar desde já na elaboração do Orçamento de 2027, com propostas para ajustar as contas públicas.
Esse interlocutor destacou que o gesto de Lula de permitir que o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), fosse o primeiro a falar no discurso após a vitória é um sinal de que o presidente entende a necessidade de ampliar a interlocução política e econômica.
Críticas à primeira fala de Flávio Bolsonaro
Mesmo parlamentares que apoiaram Flávio Bolsonaro criticaram sua primeira manifestação após o resultado eleitoral, quando disse que não reconheceria a vitória do adversário.
“Fala no calor do resultado. Espero que ele reavalie e faça uma fala mais tranquila”, afirmou um integrante do grupo.
Alguns parlamentares lembraram que esse posicionamento contraria declarações anteriores do próprio Flávio, que afirmava que aceitaria o resultado das eleições.
Após a apuração, Flávio Bolsonaro chegou a chamar o resultado de “sacanagem” e disse que era “algo inaceitável”.
O senador baseou sua argumentação na decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que prorrogou por duas horas o horário das eleições, após relatos de problemas no transporte público, redução de frotas, cobranças indevidas e excesso de chuvas em alguns estados. Tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio haviam solicitado a prorrogação.
Levantamento do g1 com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que 35.521 votos foram registrados após as 17 horas do domingo da eleição. A vantagem de Lula foi de 4,4 milhões de votos.
Flávio Bolsonaro também afirmou que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre da Corte durante a apuração, informação que foi desmentida pelo próprio TSE.
Presidências das Casas Legislativas
A vitória de Lula deve reconfigurar a disputa pelas presidências da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Os atuais presidentes, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), foram aliados importantes do petista nos últimos meses.
Na Câmara, a reeleição de Hugo Motta é considerada bem encaminhada. O deputado articulou um bloco com o maior número de partidos e isolou o PL nas negociações.
No Senado, a situação de Davi Alcolumbre é vista como menos consolidada devido ao tamanho da bancada eleita pela direita para o próximo mandato, a partir de 2027. Ainda assim, o cenário com a vitória de Lula ficou mais favorável a Alcolumbre.
Para evitar a chegada de um aliado de Flávio Bolsonaro ao comando do Senado, o senador Rogério Marinho (PL-RN), o Planalto deve se articular para garantir a reeleição de Alcolumbre.
Com o apoio do Executivo, Alcolumbre teria instrumentos importantes para negociar o apoio dos senadores, como a liberação de emendas e a distribuição de cargos.







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