Associações de pacientes reconhecem avanços na regulamentação do uso de cannabis medicinal, mas afirmam que ainda faltam definições no Brasil sobre temas como cultivo, controle sanitário e o lugar da planta na agricultura familiar. O debate ocorreu nesta sexta-feira (18), na 2ª edição da feira Febre de Arte, em Fortaleza, incluindo o II Encontro Nacional Nordestino de Associações Canábicas (II Enac).
Representantes relataram um clima de incerteza, citando casos recentes de apreensões de encomendas e destruição, pela polícia, de plantações usadas como insumo para medicamentos. Participantes avaliaram que a paralisia de debates e de andamentos concretos desde a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 1.014 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem sido um empecilho para o setor.
O diretor jurídico da Associação Canábica Florescer (Acaflor), de João Pessoa, Maurício Gomes, destacou o prazo de adaptação de cinco anos e disse entender que o Poder Judiciário transferiu questões à Anvisa.
"Quem está batendo na nossa porta não é a vigilância sanitária, é a polícia"
O técnico da coordenadoria de vigilância sanitária do Ceará, Antônio Carlos Araújo Fraga, afirmou haver insegurança por falta de subsídios e apontou um vazio de orientações práticas. Ele disse que 2026 tem sido inovador por causa do marco regulatório, que atribuiu aos movimentos sociais, e defendeu diálogo na fiscalização, sugerindo que associações apresentem reivindicações à Anvisa por canal de agendamento de audiências.
"Mesmo sem a regulamentação, não vai se saber o que fazer."
"Não tem como fazer fiscalização sem diálogo [com tais movimentos]"
A Anvisa afirmou ter garantido participação social na elaboração das resoluções, informando 29 consultas com associações de pacientes e a comunidade científica e análise de experiências internacionais. Segundo a agência, foram recebidos e considerados 47 trabalhos científicos de 139 pesquisadores, sendo 41 do Brasil. No debate, a comunidade canábica questionou critérios de seleção dos materiais compilados, e a Kaya Mind criticou a ausência de definições sobre modelo definitivo de cultivo, quem poderá cultivar, critérios técnicos, limites de THC e quando a regulamentação entrará em vigor.
Convidados dos painéis apontaram que uma das dificuldades das autoridades é delinear normas que abranjam todas as espécies de organizações do universo canábico, e não apenas a indústria. Akemy Viana Pinheiro, colaboradora da Acura, disse que associações não buscam evitar acompanhamento da produção e distribuição e defendeu controle rigoroso, mencionando a Resolução nº 7/2026, do Conselho Federal de Farmácia.
"Não é preciso só pela legislação, mas pelo paciente"
Segundo o anuário da Kaya, o Instituto Tricomas, no Maranhão, busca facilitar o acesso a medicamentos à base de cannabis por meio da agricultura familiar regenerativa e de sistemas agroflorestais. Também foram debatidas as condições de trabalho nas entidades. Isabela Luiza, porta-voz da Adapta, defendeu regularização das atividades.
"A gente quer ter tudo regularizado, como qualquer outro prestador de serviço"
O Anuário de Cannabis Medicinal 2025, da Kaya Mind, contabiliza 315 associações em atividade, registrando 27 hectares de cultivo pelas associações e 47 associações com avanço judicial para possibilitar o plantio. Hoje são 873 mil pacientes canábicos no Brasil. A feira ocorre no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com programação gratuita, e é organizada pela Agência Liamba 360º, a Ghost Produtora e a BTO.
No ciclo regulatório, a RDC 1.013/2026 detalha a produção, prevê Autorização Especial (AE) exclusivamente para pessoas jurídicas e define controle, segurança e sanções. A norma determina que produtos para pesquisa com Tetrahidrocanabinol (THC) acima de 0,3% sejam obtidos por importação com autorização prévia da Anvisa e cumprimento de exigências da ONU. A RDC 1.014/2026 cria instrumento específico para associações de pacientes sem fins lucrativos, proíbe comercialização e institui o Ambiente Regulatório Experimental (Sandbox Regulatório), com plano de monitoramento, indicadores e requisitos de controle de qualidade e rastreabilidade até os pacientes. Já a RDC 1.015/2026 atualiza o marco da RDC 327/2019, inclui pacientes com doenças debilitantes graves, como fibromialgia e lúpus, entre os autorizados a usar itens com THC acima de 0,2%, e permite produtos de uso dermatológico, sublingual, bucal e inalatório.







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