O professor de Relações Internacionais da FGV e pesquisador do Carnegie Endowment, Oliver Stuenkel, avaliou que o governo de Donald Trump ampliou a pressão sobre processos políticos e eleitorais de outros países e que o caso brasileiro se insere nessa estratégia. A análise foi feita em entrevista ao podcast “O Assunto”.
A discussão ocorre após a circulação de uma lista de 52 exigências enviada pelos Estados Unidos ao Brasil durante negociações para tentar reverter o tarifaço. Entre os itens, estava a garantia de que “dissidentes políticos” pudessem disputar as eleições de 2026. A informação foi revelada pelo jornal “O Estado de S. Paulo” e confirmada por fontes da diplomacia nesta quinta-feira (17). O governo brasileiro rejeitou essa e outras propostas e afirmou que questões políticas, judiciais e de soberania não estariam na mesa de negociação.
Para Stuenkel, o documento indica que a política tarifária americana foi usada com objetivos além do comércio.
“O que estamos vendo no caso brasileiro faz parte de um projeto que se aplica a toda a América Latina”
Ele citou a Argentina, onde Trump manifestou preferência por um dos lados durante a eleição legislativa do ano passado e afirmou que a ajuda dos Estados Unidos ao país poderia não durar caso o grupo político adversário de Javier Milei vencesse. Stuenkel disse ter estado no país naquele momento e avaliou que o apoio americano provavelmente teve algum impacto para melhorar o resultado do atual presidente argentino, em um cenário de moeda local fragilizada. Também mencionou Honduras, onde, segundo ele, Trump ameaçou uma grave crise na relação bilateral se Nasry Asfura, seu candidato preferido, não fosse eleito, o que poderia ter influenciado o eleitorado por se tratar de um país bastante dependente dos Estados Unidos.
Pressão além das eleições e exemplos fora da região
Stuenkel afirmou que a pressão americana também atinge decisões internas. Ele citou o Peru, pressionado a excluir atores chineses do controle de um porto estratégico, e o Panamá, pressionado a expulsar empresas chinesas que operam portos no canal.
“Da mesma forma, pressionam o Brasil a fazer certas mudanças na política interna”
Fora da América Latina, ele mencionou Alemanha, Austrália e Canadá. No caso alemão, afirmou que o vice-presidente J. D. Vance esteve no país pouco antes das eleições e deixou clara a preferência do governo americano pelo AfD, partido de extrema direita. Na Austrália e no Canadá, segundo o professor, a pressão teve efeito contrário e prejudicou eleitoralmente candidatos alinhados a Trump, pois eleitores passaram a ver integridade e soberania nacionais sob risco. Stuenkel disse que essa atuação pública tem sido a estratégia dominante do governo americano até aqui, “por enquanto”, e que não há garantia de que outras estratégias não sejam usadas no futuro.







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