A ex-diretora executiva de Controle e Riscos do Banco de Brasília (BRB), Luana de Andrade Ribeiro, alertou a cúpula do banco sobre problemas em carteiras de crédito adquiridas do Banco Master, segundo relatório da Polícia Federal (PF) divulgado em 28 de outubro de 2026.
De acordo com a investigação, Luana informou que havia R$ 1,1 bilhão em créditos com atraso superior a 15 dias e que a área de Riscos não havia recebido as averbações dos contratos, documentos essenciais para confirmar a natureza consignável dos créditos. Mesmo com essas falhas, as transações foram confirmadas.
Em mensagem enviada em 12 de fevereiro de 2025 ao então diretor-executivo de Finanças e Controladoria do BRB, Dário Oswaldo Garcia Júnior, Luana afirmou que fazia a análise “na confiança” e classificou a operação como uma “colcha de retalhos”, por não conseguir reunir todas as condições em um único parecer. A PF aponta que ela sofria "pressão hierárquica" para concluir o trabalho, mas mesmo assim aprovou o parecer.
Além disso, Luana assinou informes sobre a deterioração da liquidez do BRB e votou a favor em discussões posteriores sobre novas operações com carteiras de crédito.
Em 2024, integrantes da diretoria do BRB já haviam sido informados sobre falhas nas operações com créditos do Banco Master. Um gerente relatou que aproximadamente 90% da carteira recebida apresentava falhas ou não atendia aos critérios exigidos pelo BRB. Apesar disso, as operações foram efetivadas.
Indiciamentos e investigação da Polícia Federal
A Polícia Federal enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório parcial do inquérito que apura esquemas relacionados ao Banco Master e ao BRB. No documento, com mais de 700 páginas, a PF indiciou 15 pessoas por participação nas condutas ilegais, entre elas:
- Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master;
- Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro;
- Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB;
- Luana de Andrade Ribeiro, ex-diretora executiva de Controle e Riscos do BRB;
- Dário Oswaldo Garcia Junior, ex-diretor de Finanças e Controladoria do BRB;
- Outros ex-diretores e sócios ligados ao Banco Master, BRB e à Tirreno, empresa apontada pela PF como fachada.
A PF solicitou ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF, prazo adicional de 60 dias para concluir as investigações, realizar perícias e apresentar relatório complementar.
Segundo a Polícia Federal, Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa formavam o "núcleo estratégico da organização criminosa" que tentou viabilizar a compra do Banco Master pelo BRB entre 2024 e 2025.
O BRB, cujo acionista majoritário é o governo do Distrito Federal, enfrenta uma crise com perdas bilionárias ligadas a operações com o extinto Banco Master. A tentativa de compra do Master pelo BRB envolveu injeção de R$ 16,7 bilhões, mas foi barrada pelo Banco Central. Posteriormente, o BRB descobriu que parte das carteiras adquiridas era fraudulenta e sem lastro.
Defesas dos indiciados
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o indiciamento é prematuro, pois a investigação ainda está em andamento e exames periciais estão em elaboração. Segundo a defesa, não há prova de prejuízo ao BRB, e as operações teriam gerado resultados positivos. Também contestam a imputação de lavagem de dinheiro, alegando que não houve rastreamento dos recursos. A defesa pediu o arquivamento do inquérito e a revogação da prisão preventiva de Vorcaro.
"Indiciamento antes do fim da investigação: no mesmo documento em que indicia, a autoridade policial pede ao Supremo Tribunal Federal mais 60 dias para prosseguir nas apurações. Reconhece que exames periciais seguem ‘em elaboração’, que parte do material apreendido não foi analisada e que pessoas relevantes sequer foram ouvidas. Indicia-se primeiro para investigar depois."
"Inexistência de prejuízo ao BRB: o negócio envolvendo as carteiras da Tirreno não foi concluído. As carteiras foram substituídas por outros ativos, e a troca realizada demonstra que os negócios entre o Banco Master e o BRB geraram resultados positivos para o Banco de Brasília."
A defesa de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, declarou surpresa com o indiciamento por gestão fraudulenta e organização criminosa. Segundo a defesa, as conversas e documentos indicam que Paulo Henrique não tinha conhecimento das fraudes e que ele foi quem detectou irregularidades nas carteiras, exigiu garantias e comunicou o Banco Central.
"Há prova eloquente de que foi Paulo Henrique a detectar irregularidades nas carteiras; de que ele exigiu, passo contínuo, 25 bilhões de garantias; de que quando o nome da Tirreno vem à lume, as operações são suspensas; há centenas e centenas de mensagens de Paulo Henrique ao Master exigindo a substituição de ativos, na forma dos contratos, inclusive se valendo daqueles dados em garantia."
"Curiosamente, não se aponta nenhuma vantagem financeira de Paulo Henrique; a fantasiosa versão de recepção de apartamentos, na ordem de 150 milhões de reais, foi amplamente descartada, embora tenham fundamentado a prisão preventiva a que ainda está submetido."
A defesa afirma que Paulo Henrique seguiu as orientações do acionista majoritário, atuou dentro da governança do banco e que nenhuma decisão foi tomada por ele sozinho.







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