Após a vitória expressiva dos democratas nas eleições legislativas nos Estados Unidos, integrantes do governo brasileiro veem dificuldades no futuro de Donald Trump.
A expectativa é que o presidente americano tenha dificuldade em seguir com a política de imposição de tarifas e também com a implementação da chamada “Doutrina Donroe”, linha da política externa da Casa Branca que compreende o hemisfério ocidental, incluindo a América Latina, como zona de interesse norte-americano.
O Partido Democrata, de oposição ao governo republicano de Donald Trump, conquistou na madrugada desta quarta-feira (4) a maioria das cadeiras no Senado e na Câmara dos Deputados americanos. A vitória democrata incluiu a tomada de cadeiras historicamente ocupadas pelos republicanos e altera o equilíbrio de poder para a segunda metade do mandato de Trump à frente do país.
Posição do governo brasileiro e reação interna
O Brasil não irá se manifestar oficialmente sobre o resultado das eleições de meio de mandato. Segundo interlocutores do governo, não é praxe da diplomacia brasileira publicar notas sobre eleições em outros países. Além disso, Brasil e Estados Unidos vivem uma crise diplomática há mais de um ano, e a linha do governo brasileiro é adotar o pragmatismo para não agravar as tensões.
Nos bastidores, no entanto, o resultado das eleições legislativas nos EUA foi recebido com entusiasmo por integrantes do governo Lula, que fazem um paralelo com a disputa presidencial brasileira.
De forma reservada, a leitura de integrantes do governo que atuam no Itamaraty e na área internacional é que os democratas terão força para abrir no Congresso diversas frentes de investigação sobre ações de Trump nos dois primeiros anos de governo.
O entendimento é de que isso tende a forçar a Casa Branca a seguir com uma linha mais cautelosa nas políticas externa e tarifária daqui em diante.
Investigações e política externa na América Latina
Interlocutores do governo lembram que muitos senadores e deputados democratas foram eleitos defendendo que haja investigação sobre as operações na América Latina, como, por exemplo, as ações na Venezuela que incluíram a captura de Nicolás Maduro e ataques a Caracas.
Ações unilaterais que possam ferir a soberania dos países latino-americanos também tenderiam a perder espaço na segunda metade da administração Trump.
Regulamentação das 'big techs' e política interna
Outro tema que pode ser impactado é a regulamentação das 'big techs', grandes empresas multinacionais de tecnologia. O perfil dos eleitos indica que haverá uma coalizão em defesa da regulação dessas plataformas.
A medida tem apoio não só do Partido Democrata, mas também entre uma parcela dos parlamentares republicanos.
A pauta interessa ao governo Lula, que, nos últimos anos, tentou avançar com a regulamentação das plataformas, mas encontrou resistência no Congresso. A leitura no Palácio do Planalto é que a falta de regulação do setor favorece a direita mais ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Sendo assim, a tendência, segundo estes interlocutores, é que Trump faça uma disputa política com os democratas em torno de temas relacionados a minorias – intensificando o discurso contra grupos como imigrantes, muçulmanos e a população LGBTQIA+ – e reduzindo a atenção sobre adversários externos, como Irã e Cuba.
Próximos passos e relação bilateral
O governo brasileiro vai observar, nos próximos dias, como a administração Trump vai absorver a derrota e reorientar sua atuação daqui para frente.
A partir disso, a diplomacia brasileira também irá calibrar suas estratégias na relação bilateral. Além do tarifaço, há diversos pontos de atrito entre os países, como a suspeita de que o governo americano tenha ajudado Flávio Bolsonaro a fugir do país e a suspensão do visto diplomático da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.







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