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Eleições

Lula resgata Hino da Independência em atos na Paulista em disputa por símbolos nacionais: 'para saberem que não cabemos no quintal de ninguém'

O presidente Lula utilizou o Hino da Independência do Brasil em atos na Avenida Paulista durante o último ato de campanha antes do segundo turno e na comemoração da vitória, reforçando a mensagem de soberania nacional em meio à disputa política por símbolos patrióticos.

Por Atualizada em 28/10/2026 às 03:00

Lula resgata Hino da Independência em atos na Paulista em disputa por símbolos nacionais: 'para saberem que não cabemos no quintal de ninguém'
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No último ato de campanha antes do segundo turno, realizado no sábado (24), e na comemoração da vitória no domingo (25), o presidente Lula (PT) escolheu o Hino da Independência do Brasil como símbolo para embalar dois momentos decisivos da eleição.

Diante de milhares de apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, Lula pediu que a música fosse tocada e, no domingo (25), explicou o motivo: queria que seus adversários soubessem que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”.

O Hino da Independência, composto pelo Imperador D. Pedro I em 1822, com letra do poeta Evaristo da Veiga, comemora a declaração de independência do país de Portugal e foi usado como hino nacional até 1831.

No sábado (24), Lula desfilou em um trio elétrico pela Paulista acompanhado da esposa Janja e de aliados políticos, entre eles os ex-ministros Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet. O ato foi descrito pela campanha e pelo presidente como um dos maiores já realizados na avenida, com 14 dos 18 quarteirões ocupados por manifestantes no auge do evento.

Quando o Hino da Independência começou a tocar, uma pequena parcela do público demonstrou estranhamento, mas a reação mudou conforme o refrão avançava.

No domingo (25), durante o discurso de celebração da vitória no segundo turno, Lula pediu novamente que o hino fosse tocado:

“Ontem eu fiquei emocionado, e eu quero pedir para outra vez tocar o Hino da Independência. Para eles saberem que nós não cabemos no quintal de ninguém.”

Disputa pela soberania

O significado de soberania foi tema de disputa política durante a campanha eleitoral. Segundo a cientista política Tathiana Chicarino, coordenadora do curso de graduação em Sociologia e Política da FESPSP, Lula associa soberania à autonomia do Brasil diante de pressões externas, enquanto o adversário Flávio Bolsonaro (PL) usou o termo para tratar de segurança pública.

“Para essa frente democrática, soberania significa não interferência de uma potência global, como são os Estados Unidos, em questões domésticas, sejam elas eleitorais, sejam elas sobre condução de assuntos comerciais. Então, eu faço comércio contigo, eu não tenho que ceder ao que ele deseja só pelo desejo e pela força desse país”, afirmou Tathiana.

“Ele trata soberania em termos de segurança pública e tenta dissociar desses elementos de relações internacionais, sobre essa geopolítica”, acrescentou, referindo-se a Flávio Bolsonaro.

Para a cientista política, o uso do Hino da Independência ajuda a conectar o discurso de Lula à ideia de autonomia nacional, especialmente pelo refrão conhecido e direto.

“É um hino que todo mundo sabe cantar, tem um refrão bastante contundente e muito direto, muito claro”, disse.

Tathiana também destacou que a disputa por símbolos nacionais faz parte do debate democrático e que patriotismo e defesa do Brasil não são exclusividade de um único campo político.

“Patriotismo nacional e defesa do Brasil não são bandeiras exclusivas da extrema-direita, nunca foram. Esses são termos políticos que estão sempre em disputa”, afirmou.

Histórico de disputas e nacionalismo

A associação entre símbolos nacionais, como hinos, bandeira e cores verde e amarelo, e a extrema-direita antecede a presidência de Jair Bolsonaro, mas ganhou força nas manifestações de 2013 e nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2015 e 2016, consolidando-se com a eleição de Bolsonaro em 2018, segundo Tathiana Chicarino.

“Essas disputas remontam ali a 2013, uma disputa da rua. Isso vai aparecer em termos de cores. Então, a gente vai começar a identificar o verde e amarelo como sendo de um campo e o vermelho de outro”, explicou.

Durante a campanha presidencial de 2026, apoiadores de Lula também tentaram reivindicar as cores nacionais. Em 17 de outubro, o deputado federal André Janones (Rede-MG), criador do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, lançou uma missão para seguidores publicarem fotos usando verde e amarelo e fazendo o “L” com as mãos, em referência ao petista.

Essa iniciativa exemplifica a tentativa de romper a associação automática das cores nacionais a um único campo político, segundo a cientista política.

Tathiana diferencia duas formas de nacionalismo: uma excludente, que delimita quem pertence à comunidade nacional, e outra inclusiva, que permite reunir pessoas com identidades diversas.

“Existe um nacionalismo que pode ganhar contornos bastante xenofóbicos. Um nacionalismo que é fechado, que delimita quem está dentro e quem está fora. Então, bastante excludente”, afirmou.

“Mas a gente pode ter um nacionalismo mais inclusivo, que, de alguma maneira, foi o que a gente foi construindo em termos de nacionalismo no pós-ditadura, com a redemocratização. Então, ser brasileiro ou se sentir brasileiro é mais do que ter nascido brasileiro”, completou.

Para ela, essa ideia permite compartilhar referências nacionais sem apagar as diferenças entre os brasileiros.

“Eu posso ter esse nacionalismo que é inclusivo, que é diferente, é diverso, é regionalizado. Mas, ao mesmo tempo, a gente consegue perceber algo que nos une.”

Fonte original: g1.globo.com

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