O economista André Lara Resende, que foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 1998 e diretor do Banco Central (BC) entre 1985 e 1986, esclareceu que não conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem tem agenda marcada com ele. A declaração ocorre após seu artigo publicado em setembro na plataforma Substack, que propõe a criação de um novo órgão para manejo das políticas monetária e fiscal, ter mobilizado o mercado financeiro e gerado discussões em Brasília.
O texto de Lara Resende, que busca responder por que a taxa básica de juros (Selic) está extraordinariamente alta no Brasil e como escapar dessa situação, foi compartilhado pela deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) em 28 de outubro, o que impulsionou especulações sobre um possível encontro com Lula e a adoção da proposta.
"Não falei com Lula nem tenho nada marcado. Isso foi plantado para queimar alguém que defendeu a proposta", afirmou o economista à BBC News Brasil.
O artigo sugere a criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), órgão que atuaria em conjunto com o Banco Central para formular metas de longo prazo para a política fiscal e a taxa básica de juros, com o objetivo de coordenar expectativas sobre esses temas. Lara Resende destaca que a implementação do conselho dependeria da aprovação do Congresso Nacional, pois o BC não possui autonomia para criar conselhos próprios.
Segundo ele, o déficit fiscal brasileiro é causado principalmente pelo elevado juro básico, e não pelos gastos públicos, contrariando parte do setor financeiro. Em 2025, o déficit foi de 0,48% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme dados do Tesouro Nacional.
A taxa Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, foi mantida recentemente em 13,75% ao ano, após um ciclo de cortes iniciado no primeiro semestre, quando estava em 15%.
Lara Resende também comentou críticas à sua proposta, incluindo as de economistas americanos como John Cochrane, que considerou a ideia "sofisticada", mas mais teórica do que prática, e de setores do mercado e da oposição que veem a iniciativa como uma tentativa de reduzir os juros à força, comprometendo a autonomia do Banco Central.
O economista explicou que a proposta não envolve tabelamento de juros, mas sim um aperfeiçoamento institucional para estabelecer metas de longo prazo para a política fiscal e monetária, com um horizonte acima de cinco anos.
"O objetivo de longo prazo, a ser atingido na medida do possível, seria que a taxa básica de juros fosse fixada em uma faixa cujo piso seria a meta de inflação e o teto, o crescimento nominal da economia. A isso se acrescentaria um 'prêmio de prudência' que sugeri ser de 2% a 3%", detalhou.
Ele também criticou a ideia tradicional de que a política monetária controla a inflação por meio da taxa básica de juros, argumentando que a relação entre desemprego e inflação, conhecida como curva de Phillips, não se sustenta mais.
Por fim, Lara Resende ressaltou que sua proposta visa a coordenação das políticas monetária e fiscal para reduzir a taxa de juros a longo prazo, e não a imposição de medidas abruptas ou tabelamentos.







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